Um ponto com nó



Um ponto muda uma frase, um sentido, um pensamento. Um ponto afirma ou interroga, oferece certeza e provoca a dúvida na mesma frase, na mesma construção, na mesma formação de palavras. Quem conta um conto pode aumentar o ponto. Quem não tem convicção encerra na interrogação. E ponto final.


Híbridos e elétricos vão dominar o mundo. Híbridos e elétricos vão dominar o mundo? São as mesmas palavras, a mesma hierarquia de palavras, os mesmos personagens, a mesma ousadia. Em tom para baixo no fim da afirmação dos que creem em alta exorbitante do segmento. Em tom alto para enaltecer a dúvida dos que preferem pagar para ver, até porque pagar para ter, neste momento, é uma possibilidade mais remota que o trabalho de muita gente desde que a pandemia assolou o planeta.


Tudo leva a crer que os que afirmam estão mais próximos da realidade futura do que os que preferem esperar sem desgrudar da interrogação. As marcas que não migraram totalmente para os elétricos têm um ou outro produto para oferecer e as empresas mais resistentes já anunciam que logo terão o que ofertar.

A Volvo já avisou que não importará mais carros a combustão para o mercado brasileiro. Quem quiser um carro sueco novo vai ter que se adaptar.

A JAC ainda deve desembarcar alguns produtos a gasolina, mas nos últimos três anos vem falando mais em autonomia do que economia de combustível.

A verdade é que não há dúvidas, mas sim uma certeza de que híbridos e elétricos vão dominar o mundo em um processo que, em solo brasileiro, deve levar mais tempo do que em outras localidades. E neste ponto entra uma série de motivos.


O maior deles (e único em alguns casos) chama-se confiança. Culturalmente, o brasileiro está acostumado a ouvir a ignição e sentir o trepidar do carro ao girar a chave. Apertar um botão e receber a informação de que o veículo está ligado porque o painel foi aceso é algo ainda estranho. Acelerar para sair da vaga e não ouvir um ruído sequer é inimaginável para muitos.


Segundo ponto da crise de confiança (e aqui cabe praticamente só a pergunta): por maior que seja a autonomia, onde carregar um carro elétrico? Algumas regiões têm cuidado disso e na Baixada Santista não é diferente. Há unidades do wallbox em shoppings, prédios comerciais e em algumas lojas de carros. Claro que não ficam 24 horas à disposição, mas acertando o horário é possível contar com um serviço que ainda é gratuito. Ainda.

Terceiro ponto da crise de confiança: carregamento da bateria em casa. Quem mora em casa térrea pode comprar um wallbox e há até serviços de locação do equipamento. Recomenda-se verificar quadros de luz para evitar o risco de uma sobrecarga. Um wallbox custa, em média, R$ 7 mil. Vamos combinar que carro elétrico não é barato (já falaremos sobre) e supõe-se que quem pode adquirir um modelo tem também os R$ 7 mil para carregá-lo a qualquer hora.


Aqui entra um problema para quem mora em prédio: ou o condomínio coloca um equipamento, ou o morador que precisar utiliza uma tomada e paga pela energia dispensada para o carregamento. O que não dá é para fazer um fio bem comprido que vá até o apartamento. Este assunto tem ganhado as assembleias. E não há uma solução definitiva. Uma interrogação nesta hora resume bem a questão. Há novos empreendimentos que já contam com a estrutura, mas prédios com mais de três anos não têm. Esta é uma questão que irá render.


Mais um ponto de dúvida: viagens longas. Um carro elétrico vai lhe oferecer, no máximo, 400 e tantos km de autonomia. Isso se você andar a 80 km/h com o ar-condicionado desligado. Há pontos de recarga em estradas? Há, bem mais do que antigamente. Mas você está a fim de esperar umas boas horas até o carregamento total?

Ora bolas, pipocas, então por que causa, motivo, razão ou circunstância híbridos e elétricos vão dominar o mundo? Primeiro, pelo compromisso da descarbonização gradativa. Segundo (e agora vamos pensar no Brasil): já viu o preço da gasolina?


Quem neste momento parece ecologicamente e logisticamente mais apropriado recebe a alcunha de híbrido, sobretudo se não for plug-in. Quer dizer, a desaceleração e os freios tratam de carregar a bateria e você pode esquecer as tomadas. Só não esqueça os pontos de combustíveis, porque híbridos trabalham com um motor elétrico e um a gasolina (há modelo flex também, mas a respeito falaremos em outro momento).


Aceleremos!!


Paulo Rogério


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