São João do Porto


Gosto de contar histórias. Principalmente aquelas que vivi. Elas encerram um pedaço do meu coração que viveu alguma coisa que me tocou profundamente.

Tudo começou em julho de 2013 no almoço de aniversário do meu pai e meu... uns copos a mais e uns sonhos escondidos batemos o martelo que iriamos meus pais, meus filhos e eu para Portugal no ano seguinte.

Um ano de organizações. Ansiedade. Faz o roteiro, escolhe os hotéis a cada domingo um pedacinho extra da viagem e assim passamos o ano imaginando e viajando antecipadamente.

João e Ana tinham uma missão – não ia dar para ficar de recuperação em junho pois precisávamos embarcar no dia 20 de junho. A viagem começaria pelo Porto. Desembarcamos em Lisboa dia 21 dormimos para dar fim ao Jet Leg e no dia seguinte partimos para a Cidade Invicta. Chegamos com folga para passear pela capital do Norte de Portugal.

O rio Douro cintila e inspira a produção vinícola da região. A manhã da véspera de São João a cidade acorda aos borbotões. O ar tem cheiro de manjerico. As pessoas sorriem sem motivo. Os casais apaixonados trocam juras de amor. Na beira do rio velhas senhoras assam sardinhas e castanhas. Sem falar nas broas de milho que podem ser compradas em cada esquina ainda quentes e que derretem na boca. Aquela mistura de odores e sabores regada a vinho verde tinto vai te embriagando e você entra no clima sem perceber.

Os amigos presenteiam-se com vasinhos delicados de manjerico que vem acompanhados de bilhetinhos com versinhos de João. É festa! É São João. E o grande momento será a noite quando as margens do rio toda a cidade e todos os visitantes do mundo inteiro aguardam pelo momento de comemorar o Santo.

Fomos conhecer um pouco da cidade e encontrar um lugar para jantar a noite em companhia de nossa prima Rosa que mora por lá. Caminhamos bastante, mas, meu pai muito espero e faceiro conseguiu reservar uma mesa num restaurante bem de frente onde aconteceria a queima de fogos.

Por sugestão da Rosa e da família dela passamos a tarde descansando para a grande noite. Roupas leves, calçados confortáveis e pernas para que te quero. Com mais de duzentas mil pessoas ir de carro até a Ribeira é praticamente impossível a ordem é caminhar e divertir-se.

As pessoas cumprimentam-se dando marteladas na cabeça uma das outras – martelinhos de plástico como usamos no carnaval do Brasil. Até a década de setenta era costume os rapazes baterem nas moças com hastes de alho poro – ou alho porro – como é conhecido por lá como maneira de iniciar uma paquera ou mesmo aborrece-las. Hoje com os adereços de plástico toda gente usa-os como maneira alegre de comemorar.

O jantar da noite foi sardinhas, bifanas e vinho. Broa quente irresistível de molhar no azeite puro e de quebra umas azeitonas da terra. Depois conversar no burburinho e aguardar o show pirotécnico de 15 minutos que é o ponto mais aguardado da noite.

Ás vinte e três horas e quarenta e cinco minutos ou um quarto para meia noite apagam-se todas as luzes da cidade. A multidão se aglomera na praia da Ribeira e paira um silencio descomunal.... de repente raios de luzes cortam o céu e o som dos helicópteros do Pink Floyd levam a cidade ao delírio... tem inicio o maior espetáculo de fogos que já assisti em minha vida.

Ao ritmo cadenciado de Another Brick in The Wall foi de arrepiar. Aquela emoção que sentimos quando estamos em uma multidão e a energia do lugar te comove... você sente vontade que o tempo pare e que a vida seja um eterno São João do Porto.

Lembranças são o que nos aquecem em tempos difíceis. Estamos vivendo um momento que as aglomerações e as comemorações estão proibidas, mas, ainda assim podemos trazer um pouco de pipoca, vinho quente e quentão, um bolo de fubá quentinho e muito amor para nossa vida.

O momento é de orar. Pedir a Santo Antônio, São João e São Pedro que acalente todas as famílias que perderam, mas, que mantenha viva a chama das festas de junho em nosso coração.


Helena Fraga - 24/06/2021



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