Minha São Vicente...


São Vicente... a primeira cidade do Brasil - Foto acervo pessoal 1978


São Vicente querida que me acolheu desde meus primeiros dias de vida. Onde conheci meus amigos mais queridos. Onde encontrei o amor. Onde tomei sol no Itararé e senti a quentura da areia...

São Vicente que transformou meus sonhos... Que encontrei minha vida profissional. Que criei meus filhos...

A cidade que encerra memórias aquecidas e pessoas que povoam minha mente. Quanta saudade sinto do violão tocado na prainha ao lado dos jovens da Igreja São Pedro Pescador!

E os comerciantes que fizeram o progresso da cidade? O Fiel Barateiro onde aprendi desde menina a contar nos dedos os produtos para comprar sem esquecê-los; e lá ia eu pela Expedicionários Vicentinos cantando baixinho:

— Ovo, farinha e feijão...

Mas, como menina que vivia no mundo da lua, sempre esquecia um item e tinha que retornar...

Os beijos roubados no calçadão da Baía mais bela do mundo. Pequena? Talvez, mas, esplendorosa... Sentar-se nas pedras e deixar que a alma voasse até o infinito...

E lá estava a Garganta do Diabo... As lendas contavam que muitos perderam a vida tentando atravessá-la em dias de mar revolto...

A Primeira Comunhão na Igreja Matriz. Era muito grande e repleta de altares que pareciam estar ali desde a fundação da cidade. No altar-mor, a imagem de São Vicente Mártir... tão grande e bonito com vestes de rei... ou seria bispo? O Monsenhor Boroviski bravo não gostava de bagunça, mas, criou a primeira missa para crianças...

A Rua XV tinha milhares de lojas... todos eram amigos. O Bazar Ideal possuía tudo o que você podia sonhar para sua casa... e as Lojas Pernambucanas logo ali perto eram o símbolo do comercial de TV da época:

— Quem bate? É o frio...

Deliciava-me na Biscoiteira... ficava maravilhada com tantos enfeites para festas... E o aroma? Havia um odor de doces... parecia que a loja era revestida de algodão doce!

Atravessava a rua com cuidado; tinha um posto de gasolina na esquina. Era da bandeira concorrente ao posto de gasolina do meu pai, mas o Seo Vitor e meu pai eram amigos... Eu sentia medo de atravessar ali, mas, queria passear e passar minhas mãos pelos pelos macios tapetes da Tapeçaria Dias...

Chegava sempre esbaforida nas aulas de catecismo no Colégio São Gabriel. Não me lembro do nome da freira que me dava aula, mas, lembro-me de que parecia uma Santa. Seu rosto era muito alvo e ela falava muito baixo; acho que era para nos ensinar que Jesus está sempre em nosso coração.

Como já comentei, eu morava na Expedicionários Vicentinos... Primeiro, no 60, depois no 84 e no 80. Era uma rua feliz... Havia crianças de todos os jeitos... mães acolhedoras... senhoras que ficavam na janela. Tinha ex-prefeito e vereador. Campeã de natação. Maestro. E, claro, tinha meus amigos de infância – a Eliane, a Katinha, a Katia, a Márcia, a Mariana... Tinha lanche da tarde com pão de cará e suco...

Lembro-me de que sentia uma dor na alma quando minha mãe me levava na avícola... tadinha das galinhas! Mas ali do lado, em ganchos grandes de metal, estavam cortes de carne no açougue do Seo Abel...

T inha a Donana... ou seria Dona Ana? Ela vendia as frutas e as verduras mais bonitas... Quitandas... Não me lembro de tê-las hoje em dia... o mais perto que se chega são os hortifrutis...

E o medo de ficar doente? E tomar injeção na farmácia do Seo Paulo? Nem imaginaria que o Paulo da Farmácia era o pai do Roberto Shinyashiki.

Tanta gente importante e famosa conheci na minha são Vicente...

O Dr. Maurity, meu dentista desde os seis anos... O Dr. Joaquim mantinha meus ouvidos e garganta em dia, mas, não teve jeito e tive que retirar as amígdalas...

Depois cresci... Fui para a faculdade... Comecei a trabalhar no Monumento. A vida continuou me presenteando.

Lembro-me de uma tarde muito especial tomando chá com o Dr. Jaime Horneaux de Moura... Naquele dia, muito jovem, fiquei fascinada com tantas histórias... com a cultura daquele homem e com a vivência dele em todas as áreas da nossa querida São Vicente.

Como jornalista tive o prazer de conviver com o Ivo Roma Novoa quando era Diretor da Sucursal do Jornal em nossa cidade. Com ele aprendi muito sobre a vida e suas nuances. Conheci sua amada Dorothea que me mostrou as cores da arte. Convivi com os dois e tornei-me afilhada deles no Clube dos 21 Irmãos Amigos de São Vicente.

São Vicente mora no meu coração...

Os amores aqui encontrados são parte da minha existência...

As cores que pintam o nascer e o pôr do sol na cidade refletem a Ponte Pênsil e a História escrita em tons de pastel às vezes ou mais carregadas por dor e sangue.

São Vicente, parabéns pelos seus 490 anos...


By Helena Fraga



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